Mobilização Social

CONCEITOS

Não é muito fácil ter muitas pessoas alinhadas as tuas propostas, pensando e agindo conforme o que tu acredita que seja o correto. Parece que nós, pra exercitar a individualidade e nos acreditarmos únicos, precisamos constantemente reforçar ideais tão particulares que acabam sendo incompatíveis com os ideais de outras pessoas da mesma comunidade. No fim, todos nós queremos acertar, mas do nosso jeito.

Justamente por reconhecer as dificuldades que envolvem trabalhar conjuntamente com grande quantidade de pessoas, mas entender a importância da unidade de pensamento para compor estratégias que resolvam problemas casca grossa, o professor Bernardo Toro se debruçou na constituição de uma técnica de Mobilização Social. Neste post, vamos ver os principais pontos desta técnica, que eu considero brilhante.

Antes de entrarmos no assunto propriamente, é bom que tu saiba duas coisas:

Mobilização é convocar voluntários a um propósito, com interpretações e sentidos compartilhados.

Ou seja: mobilizar é um ato de liberdade, que depende da paixão dos envolvidos, para atuarem com precisão, foco e razão, a partir de ferramentas de comunicação.

Apesar de termos subvertido o termo convocar, seu sentido não é de obrigatoriedade, mas sim de compartilhamento da responsabilidade.  O voluntário só se dispõe a atuar sobre o que ama, sobre o que tem paixão. E atuar com propósito, significa atuar focado, de forma precisa e não através de objetivos difusos, pouco claros. Por fim, compartilhar interpretações e sentidos é praticamente uma definição de comunicação, que não seja manipulativa ou persuasiva.

Sociedade contemporânea se caracteriza como urbanizada (porém não totalmente urbana), reconhecida através de elementos situacionais (profissão, hobbies, opção sexual), cuja leitura de cidadania transcende o papel do Estado e aproxima-se ao ideário de viver bem.

A partir desta abordagem, as questões de territorialidade perdem força. A identidade local tende a deixar de ser relevante, quando se compara a outras formas de indexação social. As intervenções extranacionais crescem em frequência e intensidade, compondo consumidores internacionais, com padrões de qualidade de vida internacionais. O referencial comparativo de viver bem está além da comunidade. Isto leva a um problema real na mudança de padrão das reivindicações sociais. Os movimentos sociais tendem a atuar não mais pelo aparelhamento do Estado ou pela oportunidade de construção conjunta.

Na prática, a sociedade não está mais mobilizada por hospitais ou escolas ou mais policiamento. Transcendeu-se este conceito, muito claro até os meados do século passado. Hoje, as reivindicações são mais ligadas a moralidade do Estado (ficha limpa), ao reconhecimento de direitos optativos (casamento homossexual), ao reconhecimento dos limites individuais (aborto), entre outros. Discute-se muito mais os conceitos.

Enfim, se eu seguir com esse papo, este vai ser o post mais imenso da história do blog. Vou direto ao assunto.

MOBILIZAÇÃO SOCIAL

A cartilha parece simples. Tem uma receita de bolo. Vou abrir cada um dos passos, pra que seja possível discutir problemas mais comuns e formas de resolvê-los.

1. Construção do Imaginário

Este é um problema de paixão. Qual será a imagem da mobilização? Pra onde iremos? Qual é nosso sonho? Como o mundo estará quando alcançarmos o sucesso? A definição do imaginário é semelhante a definição da Visão, nos princípios organizacionais de qualquer empresa. A forma como a paixão se mobiliza não é através da lógica, mas sim através de imagens e representações. Deve-se converter o discurso lógico, duro, matemático, em algo que mova a paixão.

O imaginário está atrelado a um desafio imposto pela sociedade. O desafio já deve estar lá: o imaginário somente o traduz, o concretiza, o evidencia. Não há imaginário construído em cima de um problema que não existe, seja sentido e que haja interesse de solução. Desta forma, o imaginário garante sua legitimidade, contribui para a coletivização (como veremos mais adiante) e tem facilitada sua inserção em meios de massa que, se bem manejados, favorecem a construção de uma iconografia expressiva para os excluídos da comunicação (crack nem pensar).

Importante é entender que fazer o imaginário não é fazer um spot publicitário. Isto é parte do imaginário, talvez para torná-lo inteligível, compreensível, mais aderente, mas ele não se reduz ao spot.

2. Identificação, mobilização e instrumentalização dos reeditores

Reeditores são pessoas com público próprio. Amplia teu conceito e abrange qualquer pessoa capaz de se apropriar de informações, alterá-la conforme suas percepções, filtrar o que considera certo e errado e, principalmente, que quando fala o produto destas alterações, é ouvida. Costureiras, cabelereiros, professores, médicos, advogados… qualquer pessoa que tenha voz na comunidade, não só institucionalizada mas reconhecida. O reeditor não é um papagaio. Ele deve ser capaz de adequar a informação às referencias da comunidade na qual está inserido. Isto particulariza a comunicação, dá respaldo, segurança e garante que os mesmos signos serão usados entre aqueles que se conhecem. Mesmo que a mensagem esteja codificada pelos olhos do produtor social, do emissor, o reeditor faz o trabalho de “traduzi-la” para a linguagem da comunidade.

Via de regra, é fácil identificar um reeditor quando alguém na comunidade atende os três quesitos:

1) trata-se de uma pessoa que tem um público próprio, cativo, mesmo que não exclusivo.

2) é uma pessoa que pode negar, transmitir, introduzir e criar sentimentos

3) é capaz de modificar as formas de pensar, sentir e atuar de seu entourage

O reeditor estará disposto a participar de uma mobilização quando estiver sensibilizado pelo imaginário e quando compreender seu papel, identificar o que possa fazer pra viabilizar a mudança. O imaginário, portanto, deve despertar a paixão no reeditor. Dessa forma, a mobilização vai ocorrer quando os reeditores, em seu trabalho quotidiano, estão tomando decisões, desenvolvendo discursos e atuando em função de um imaginário. Neste momento há mobilização.

3. Coletivização

Parte importante no processo de mobilização social é a identificação do reeditor com os demais reeditores que atuam sob o mesmo imaginário.  Já vimos que o conceito de sociedade transcende a territorialidade e está atrelado a questões situacionais, de reconhecimento próprio. Desta forma, os diversos reeditores devem se reconhecer como parte do mesmo grupo social, através do compartilhamento deste imaginário. Um exemplo claro são os Jesuítas, que reconhecem uns aos outros, independente de onde estejam atuando, muito por dividirem um mesmo imaginário.

A construção da coletividade através da interação entre os reeditores com o mesmo imaginário consolida o projeto de mobilização social e estrutura a rede de atuação destes atores. A partir desta rede de reeditores, os processos de instrumentalização, ou seja, a forma com que a informação será repassada aos reeditores e dos reeditores para as comunidades torna-se em grande parte autônoma, com gestão conjugada entre os reeditores e o produtor social.

Neste post não cabe a discussão, mas projetos de mobilização social que atuam sobre problemas estruturais, geralmente encontrarão reeditores mobilizados por imaginários distintos, mesmo que o objetivo das ações seja o mesmo. Neste ponto, um acordo entre os diversos produtores sociais promotores dos distintos imaginários é a melhor solução. Sempre percebendo as particularidades de um acordo, que difere de uma negociação ou um convênio.

APLICAÇÃO

O profissional que se propõe a articular as diferentes instâncias necessárias para concretizar a mobilização social, conceitualmente, está atrelado ao produtor social, ou seja, aquela instituição que tem a idéia, organiza as equipes técnicas, organiza as finanças e seleciona os atores para desenvolver o imaginário e sensibilizar os reeditores. Este profissional deve apresentar as seguintes características (dentre muitas outras),

1. Saber como construir um imaginário.

2. Entender como identificar e instrumentalizar os reeditores.

3.  Saber de que forma o reeditor pode ter uma participação efetiva no imaginário.

4. Compreender como gerar processos de coletivização dentro de seus reeeditores.

Ao produtor social cabe entender muito bem o campo de atuação dos reeditores, suas particularidades e conflitos. A produção de todos os recursos de comunicação se dará a partir da identificação do perfil majoritário destes reeditores.

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